Batalhão  2908

 

Unango - Macaloge - Pauila

 
1970

MOÇAMBIQUE

1972

 
 

Cancioneiro do Niassa

 
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Fado Checa   

Bem-vindo Checa

P’ra esta guerra

Que cá te espera,

Não estejas triste

Que a guerra é linda

Só fazes cera.

Vais ter saudades

De mulheres brancas

Ai que tormentos,

Aqui há pretas

Mas tem cuidado

C’os esquentamentos.

Refrão

Checa  danado

Pela tropa mui lixado,

Não chores ó desgraçado

Não vale a pena chorar.

Checa benvindo

Chegaste a horas

Eu já vou indo;

E afinal mal  encavado

Que vieste cá fazer?

Checa danado

Vieste p’ra me render!

II

Vais lerpar muito

Mas com o aumento

Vais ficar rico,

Dá-o às pretas

Pois assim fazes

A tua “psico”.

Mas tem cuidado

Checa danado

Sê pouco anjinho,

Mando-os lixar

E faz a tua guerra sozinho.

 

Povo que Cagas no Lago 

Povo que cagas  no lago

Que infectas com teus excrementos  

A água que eu beberei.

Pode haver quem te despreze

Quem te dê mesmo porrada   

Mas eu cá não o farei

Fui ter à povoação  

E doeu-me o coração 

Com tudo o que lá vi

Nos olhos daquela gente    

Só vi um ar de doente  

Que tive pena e fugi

Fome ali era mato

Comia-se em qualquer prato  

Que fica sempre vazio

Pobre povo, ó desgraçado

Nem mesmo grita aos culpados

Vão p’ra  puta que os pariu

 

VENTOS DE GUERRA

De quantos sacrifícios senhores que em mim mandam

É feita a vida de um soldado

De quantas noites perdidas no mato

É feita a vida de um guerreiro

São ventos de guerra

Não penses amigo

Que a hora que passa é de perigo

Bis

De quantos tiros senhores que me ordenam

É feita a vida de um soldado

De quantas minas senhores que em mim mandam

É feita a vida de um guerreiro

Quem limpa senhores as manchas de sangue

Que os jovens deixam na picada

Quem limpa senhores lágrimas choradas

Por noivas e mães adoradas

São ventos de guerra

Não penses amigo

Que a hora que passa é de perigo

De quantas saudades senhores que em mim mandam

É feita a vida de um soldado

E quantas loucuras senhores que me ordenam

Contém a vida de um guerreiro

De quantos desgostos senhores que em mim mandam

É feita a vida de um soldado

E quanto vinho senhores que me ordenam

Se deve beber p'ra esquecer

São ventos de guerra

Não penses amigo

Que a hora que passa é de perigo

E quantas vezes senhores que em mim mandam

Se deve expor a vida ao perigo

E quantos gritos se devem soltar

P'ra se acreditar que está vivo

Quantas ideias tombadas na luta

Quantas esperanças perdidas

Quanto sangue deve um jovem verter

Antes que o chamem de homem

São ventos de guerra

Não penses amigo

Que a hora que passa é de perigo

 

 
         
   
         
 

O Turra das Minas

Música de “Júlia Florista” de

 Joaquim Pimentel

O turra das minas, pequeno e traquinas

Lá vai na picada

E a malta escondida

Na mata batida, monta a emboscada

O turra passou e a malta esperou

Já toda estafada;

Não o viu passar

E a Berliet sempre foi estourada.

Refrão

Ó turra das minas

Tua vida agora

É por as marmitas p´la picada fora

Ó turra das minas

Tua arma soa

Por léguas e léguas

Aqui no Niassa

Onde a guerra ecoa

Há mortos e feridos e os mais “comidos”

Somos sempre nós

Vamos p´los ares, gritando por todos

Até p’los avós

Ó turra bairrista, mas pouco fadista

Já é tradição

Ser pára-quedista, sem tirar o curso

Ai isso é que não.

Refrão

Ó turra das minas

Tua vida agora …

TABERNA DO DIABO 

Um dia fui dar com Deus

Na taberna do diabo

Entre cristãos e ateus

Fizeram de mim soldado

E eu sem querer fui embarcado

Levei armas e um galão

Pr'o outro lado do mar

Quis levar o coração

Não mo deixaram levar

 E eu sem querer ia matar  (Bis)

Deram-me uma cruz de guerra

Quando matei meu irmão

E a gente da minha terra

Promoveu-ma a capitão

E eu sem querer fiquei papão  (Bis)

Todos me chamam herói

Ninguém me chama Manel

Quem quer uma cruz de guerra

Que eu já não vou pr'ó quartel

Que eu já não vou pr'ó quarte

 

NEUTEL D'ABREU - "GORONGOZA" 

Em frente ao Neutel D'Abreu
A quem roubaram a espada
Existe a Gorongoza
Pasto de vacas malhadas

Cheiinha de bois cavalos
E de outros animais
Costumam apelidá-los
De Senhores Oficiais

A messe de oficiais (Bis)

Numas cadeiras de verga
Expostas no grande hall
Lá estão as vacas malhadas
Com suas coxas ao sol

E os pobres desgraçadinhos
Que trabalham no quartel
Mal percebem coitadinhos
Que são putas a granel

A messe de oficiais (Bis)

 

 
         
   
         
 

A ERVA LÁ NA PICADA 

A erva lá na picada
Pisam-na os guerrilheiros
O coração dos soldados
Pisam-no os coronéis
E ajudam os machambeiros Bis

Que culpa tem o soldado
De ter raiva à sua sorte
Se chega um filho da puta
Que o mete numa farda
E o manda para a morte Bis

E o Senhor Brigadeiro
Vive muito consolado
Até comprou uma balança
Para pesar o dinheiro
Que rouba ao pobre soldado Bis

Quando será Deus do Céu
Que um dia haverá verba
Que um dia haverá verba
Para a malta comer pão
E os chicos erva erva/ merda merda Bis

Merda merda!
Merda merda!
Merda merda!

 

LUTA PELA VIDA 

Venham velhos doutores e os que contam histórias
Venham ver os que lutam sem querer buscar glórias
Anda ver meu irmão os que tombam no chão
Frente à morte na luta pela vida

Venham ver os que vivem e apostam na sorte
Venham ver os que dormem nos braços da morte
Venham ver como é que se luta com fé
Frente à morte na luta pela vida

Se há um jovem que tomba outro se levanta
Se há um jovem que chora há outro que canta
Anda ver meu amigo os que riem do perigo
Frente à morte na luta pela vida

Sabem todos que a vida é caminho duro
E que a força das armas defende um futuro
Que se guarde a imagem da imensa coragem
Frente à morte na luta pela vida

Venham velhos doutores e os que contam histórias
Que se guarde pr'a sempre nas vossas memórias
Que assim tomba no chão a minha geração
Frente à morte na luta pela vida
Frente à morte na luta pela vida

 

BOCAS BOCAS 

Bocas, bocas, bocas
Bocas, bocas, sois tão belas
Bocas, bocas, bocas, estou farto delas

Boa terra é o Luânga
O bocas nos prometeu
Ai que bom que isto é
Dizes tu e eu
Façam pontes e picadas
Cheguem a Nova Viseu
Bis

(Era bom era mas são)

Bocas, bocas, bocas
...etc.

Reuniram-se as cabeças
E decidiram por fim
Isto é muito pouco
Não fica assim
Façam pontes e picadas

E cheguem a Valadim
Bis

(Era bom era mas são)

Bocas, bocas, bocas
...etc.

Eu canto p'ra minha Mãe
Que p'ra tropa me viu nascer
Tenho pena meu filho
Não te posso valer
Tinhas razão mamãzinha
Estão fartos de me apalpar
Bis

(E infelizmente não são)
Bocas, bocas, bocas
...etc.

Agora canto p'ros "cabeças"
Que lá p'ra Nampula vivem
Vão a banquetes
Usam botões de punho
Mas quem se lixa é a malta
Que p'ro ano vai p'ro Lunho
Bis

(Era bom era, mas são)
Bocas, bocas, bocas
...etc.
E deles também

 
         
   
         
 

FADO DO MILICIANO 

Ser miliciano foi meu sonho
Mas não foi esse o meu fado
Deus deu-me outra fantasia
A de entrar para a Academia
E ser oficial do quadro

Abandonei os civis
Ai deixei a honestidade

Passei a ser calaceiro
Sabujo do mundo inteiro
Deixei de falar verdade
Bis

Hei-de ir p'ro Estado-Maior
Cagar postas de pescada
Dedicar-me àquele estudo
Eles é que sabem tudo
Os outros não sabem nada

Não chorem pelo meu fado
E de mim não digam mal

Se eu aldrabar um bocado
Se eu aldrabar um bocado
Bis

Ainda chego a General
(E não é preciso ser muito...)

 

FADO DO DESERTOR

Estava eu na minha terra
Disseram-me vais para a guerra
Bis

Toma lá uma espingarda
E um bilhete p'ro navio
E uma medalha num fio
E uma velha, velha farda
Bis

Após dias de caminho
Estava já muito magrinho

Esfomeado como um rato
Olhei bem só vi palmeiras
Macacos e bananeiras
Entendi, estava no mato
Bis

O furriel e o sargento
Chamavam-me fedorento

Porque me queria lavar
E o alferes e o capitão
Diziam que era calão
Se me viam descansar
Bis

Estava tão farto da guerra
E ao lembrar a minha terra

Fui um dia passear
Numa palhota sozinha
Estava uma preta girinha
Que ao ver-me pôs-se a chorar
Bis

E fiquei com tanta pena
Dessa mocinha morena
Bis

Que fugimos para o mato
Somos um casal feliz
E já temos um petiz

Bis

Que por sinal é mulato

 

FADO DO ANTONINHO

Foi no Domingo passado que eu passei
À casa onde vivia o Antoninho
Mas está tudo tão mudado
Que não vi em nenhum lado
Os tais agentes da Pide bonitinhos

Do rés-do-chão ao telhado
Não vi nada nada nada que fizesse
recordar a tal vidinha
Já não há vidros pregados reforçados
Guardados com tabuinhas

Entrei onde era a casa agora está
À secretária um sujeito uma delícia
Não vi bombas nem espingardas
Nem revólveres nem espadas
Nem espreitadelas furtivas da polícia

O tempo cravou a garra
Na alma daquela casa
Onde às vezes parecia não ter gente
E onde em noites de segredo e meter medo
Lá surgia o Presidente

As janelas tão medonhas que ficavam
Com cortinas a tapar a velharia
Ganharam de novo a graça
Pois são hoje umas vidraças
Já livres de toda a porcaria

E lá p'ra dentro quem passa
Hoje é para ir ao Marcelo
Entregar ao Presidente um pedidinho
Pois chega a esta desgraça toda a graça
Com a doença do Velhinho

P'ra terem feito da casa o que fizeram
Melhor fora que a mandassem p'ras alminhas
Pois na casa de Saúde
Provas de amor amiúde
É ideia que não cabe cá nas minhas

Recordações do pavor
D'avareza e do terror
Vamos procurar esquecer nas cervejinhas
Pois dar de beber à dor é o melhor
Já dizia a Mariquinhas
Bis

 
         
   
         
 

HINO DE VILA CABRAL

No dia em que lá chegámos
Contentes ficámos e admirados
Vimos moças engraçadas
Nos parques sentadas
Com seus namorados

Em seguida toda a malta
Foi dar uma volta
E até por sinal
Ficámos admirados
Com os autocarros de Vila Cabral
Bis

Depois fomos em seguida
Por uma avenida
Que é de encantar
E então só de passagem
A linda paisagem
Fez-nos delirar

Vimos coisas tão bonitas
Que atraem turistas
E os faz pasmar
E fomos de madrugada
À sardinha assada
À feira popular

Bis

Depois fomos mais além
E vimos também parques infantis
P'ra vermos coisa mais fina
Fomos à piscina ver os biquinis

No fim vimos muita gente
E disse contente o amigo Amaral
Com tanta coisa que ver
Dá gosto viver em Vila Cabral (Não! Não!)
Com tanta coisa que rir
Dá gosto fugir de Vila Cabral
Com tanta coisa que rir
Deu gosto fugir de Vila Cabral

 

HINO DO LUNHO

No céu cinzento sobre o astro mudo
Batem os hélices na terra esquentada
Vêm em bando com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada

Se alguém se engana com o seu sorrir
E lhes franqueia as portas à chegada
Só mandam vir só mandam vir
Só mandam vir e não fazem nada
Bis

A toda a parte vai um Helicóptero
Poisa nos tandas poisa nas picadas
Leva no bojo os cabeças de ouro
Que de guerrilha não percebem nada

São os reizinhos do Niassa todo
Senhores por escolha mandadores sem punho
Acitam cunhas e dizem que não
Fazem as rondas sobre o céu do Lunho

Estou farto deles
Estou farto deles
Só mandam vir
E não fazem nada

Bis

Quantas Mercedes Senhor capitão
Até agora foram fornicadas
Eu bem lhe disse que pusesse os homens
Estourando minas fazendo emboscadas

Foi de propósito
Foi de propósito
Foi de propósito
Que'la foi estoirada

Bis

No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas de um credo
E não se esgota o sangue da manada

Fazendo estradas sobre um chão de greda
Fazem-se aterros pontes e pontões
Ouvem-se os tiros lá na emboscada
Aqui no Lunho é que há leões

Estou farto deles
Estou farto deles
Só mandam vir
E não fazem nada

Bis

Tremem paredes de qualquer quartel
São militares anda tudo à bulha
Ri-te capitão ri-te coronel
Com esta moda da mini-patrulha

Encher o peito de metal brilhante
É essa a sua grande aspiração
Por isso deixa os turras sossegados
Dentro da linha de contenção

Deixam crescê-los
Organizá-los
Depois eu vou
Deitar-lhes a mão

 Bis

Estranha forma de tratar o cancro
Que se propaga p'la nossa nação
Ele será leigo ou talvez ceifeiro
Mas nunca médico cirurgião

Por uma ponte sem terminação
O nosso sangue foi derramado
Mas aleluia não será lembrado
Pelos cabeças d'ar condicionado

Estou farto deles
Estou farto deles
Só mandam vir
E não fazem nada Bis

Se alguém se engana com o seu sorrir
E lhes franqueia as portas à chegada
Só mandam vir só mandam vir
Só mandam vir e não fazem nada
Bis

Estou farto deles
Estou farto deles
Só mandam vir
E não fazem nada Bis